quarta-feira, 14 de abril de 2010

O Homem ou o Cão?

O que é mais perceptível? Um cantar intermitente de um homem flagelado por mazelas desconhecidas, ou o ladrar de um cãozinho, sujinho, diga de passagem, entretanto sem perder o encantamento dos seus cachos brancos?

Saía de casa em direção ao metrô, e por lá ele estava. Era a primeira vez que o via pelas ruas alfacinhas. Maltrapilho, descuidado, cabelo e barba por fazer, talvez sendo possível aproximar-me sentiria um forte odor, daqueles acumulados pela falta de água. Sobre um carrinho, semelhante aos dos “catadores de papelão” no Brasil, levava consigo poucos pertences, para muitos seria apenas lixo, para ele talvez as poucas coisas que possuía, carregadas quem sabe de um valor sentimental inestimável.

Seu canto era palavras irreconhecíveis, mas era carregado de uma emoção que não poderia descrever. “Palavras” que poderiam soar como um canto ou um protesto. Talvez muitos o considere um louco, enterrado em suas enfermidades sociais, mas a lucidez poderia ser contestada em momentos em que o sistema nos exclui de tal forma que nos deixa invisível perante aos ainda não excluídos/invisíveis?

Voltando para casa, pude vê-lo novamente, agora bem na Praça de Camões, reduto agora compartilhado com turistas, jovens com fins de manhãs livres, idosos sem companhia e talvez alguns vendedores de drogas. Mas sempre acompanhado de seu cãozinho, valente ao ladrar àqueles que ousam se aproximar, ainda mais se considerarmos o seu tamanho. Se não fosse esse pormenor muitos que ali passavam acariciariam sua cabeça e talvez a adoção passasse por suas mentes. E o canto do Homem perdera-se como uma trilha musical por muitos considerado desnecessário.

Não nego que o Cão tirou-me um sorriso do rosto após uma noite com poucas horas dormidas e de um dia não muito bonito carregado de nuvens negras cheias de água no céu. Será que o “canto” do seu rosnar e latir soam melhor nos nossos ouvidos?

terça-feira, 13 de abril de 2010

Sérgio Vieira de Mello

Há poucos meses li a biografia de Sérgio Vieira de Mello, escrita pela jornalista/escritora/académica/funcionária do governo dos EUA, a irlandesa/estadunidense Samantha Power, aliás, com um rigor investigativo invejável em dias em que escrevem-se biografias em duas semanas para suprir a procura de um mercado pós-morte ou corresponder aos apelos midiáticos de “novas personalidades”.

Apesar de brasileiro, fora pouco conhecido no Brasil já que a “grande mídia” (talvez mais adequado o uso do termo “mídia grande”) não o considerava digno de interesse em leitores mais acostumados em ler as fofocas, o que se passa na TV, ou ainda as notícias esportivas. Não que a mídia especializada ou revistas mais conceituadas se debruçassem sobre seu trabalho ou acontecimentos ligados à sua vida. A carência fora generalizada sobre uma das mais importantes autoridades internacionais brasileiras. Admito que talvez, se não tivesse afinidades profissionais que iam ao encontro do trabalho realizado por Sérgio, pouco saberia a seu respeito.

Sérgio fora assassinado no Iraque, em uma missão de paz da ONU que ele mesmo chefiava, em 2003 logo após a conturbada invasão estadunidense. Trabalhou durante cerca de três décadas na ONU e era o Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Atuou em missões de paz em países como Camboja, Líbano, Kosovo, Ruanda e Timor-Leste. Mas o que mais chamava atenção nele era a forma como trabalhava, abdicando de hierarquias, conversando e olhando nos olhos de todos, buscando compreender e ouvir todas partes em um conflito mesmo que por detrás da mesa estivesse um genocída ou um ditador.

Ontem, assistindo um documentário sobre ele, pude reconhecer rostos, vozes, lugares, que antes somente com a leitura da biografia, eram apenas representações fantasiosas de minha mente. Ler, assistir, ouvir, ver o Sérgio é como um combustível àqueles que buscam no seu trabalho uma forma de deixar um legado de paz por onde passar.

terça-feira, 16 de março de 2010

Oscar 2010

Interessante notar com o passar dos anos a decadência ou ainda o descrédito acrescido ao Oscar, o aclamado prêmio da Indústria Cinematográfica. Mas fico pensando se esta derrocada não é inversamente proporcional ao aprimoramento de nosso senso crítico. De qualquer forma não se pode deixar de sublinhar suas incoerências. Acostumado a “deixar de lado” os destaques de grandes festivais como Cannes e renomados diretores como Almodóvar e Ozon, este ano houve explicitamente uma grande vontade de gerar mais renda e público para os filmes estadunidenses.

O relançamento de Guerra ao Terror (2008) e suas posteriores estatuetas falam por si só. O já imensamente rentável Avatar não pôde então levar tantas (não que para mim seja também um filme merecedor de um prêmio de melhor película do ano). Tudo pode dar certo, por exemplo, que prima pela costumeira sensibilidade de Woody Allen e conta com ótimas atuações, não foi lembrado.

Vale a pena conferir os “vencedores” do último Oscar, nem que seja apenas para refinar nossas críticas a sobreposição de interesses financeiros à qualidade artística no “grande prêmio” da cinematografia mundial.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Welcome

Bem vindo (Welcome, 2009), escrito e dirigido pelo francês Philippe Lioret, entrelaça duas histórias de amor. De um professor de natação francês e sua ex-mulher e de um refugiado curdo do Iraque que sonha reencontrar sua namorada na Inglaterra. Enquanto o segundo vê a travessia do Canal da Mancha a nado como última forma de chegar aos seus objetivos, o primeiro envolve-se nesta história e percebe que o fim do seu relacionamento pode ainda ser contornado. O filme, apesar de abordar questões referentes às leis imigratórias europeias, não me pareceu intuído a críticas e discussões, mas sim como um pano de fundo bem chamativo já que vem sendo muito discutido nas agendas políticas dos Estados europeus atualmente.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Compra de um veículo X Emissão de gases poluentes

Na hora da compra de um automóvel, dentre os mais de 400 carros produzidos no Brasil, o grau de emissão de gases poluentes pode ser um bom parâmetro para a escolha. Em lista divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente, Citroën e Peugeot destacam-se por poluírem mais, enquanto General Motors e FIAT por estarem mais atentos às questões ambientais.

Segue a lista dos mais poluentes:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ult10007u660085.shtml

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Qual é o lugar da mulher?

As mulheres, assim como outras “minorias” em nossa sociedade, vêm chamando a atenção, não apenas para os direitos e inclusão conquistados, mas principalmente pelos ainda por vir.

Na semana passada, ganhou grande repercussão internacional, a escassez de candidatas para ocupar os dois cargos mais altos da União Europeia. “O poder estaria nas mãos dos homens, que o dividiriam entre si”. Esta indignação das eurodeputadas me fez lembrar o curto tempo em que prestei serviços para a Caixa Econômica Federal há alguns anos atrás. Os rumores nos corredores eram sobre as dificuldades criadas pelo “Clube do Bolinha” à promoção das mulheres ao cargo de gerente geral das agências do Espírito Santo. As redes “silenciosas” criadas pelos homens cria inconvenientes às mulheres, que normalmente precisam ser muito mais qualificadas para ascenderem profissionalmente.

Esta semana a visita do presidente iraniano Amadinejah, gerou forte protesto no Brasil sobre o lugar dos homossexuais e mulheres na sociedade iraniana. Ao contrário do preconceito no mundo ocidental, já que aqui a “liberdade” impera e a discriminação não deve ser velada, lá, a injustiça é explícita, típica falta de liberdade de regimes ditatoriais.


"Sementes de romã douradas"

No fim do mês passado foi exibido pela Al-Fajer TV, a cadeia de televisão de Tulkarem, norte da Cisjordânia, um documentário de 15 minutos, intitulado "Sementes de romã douradas", dedicado ao tabu do incesto com a pretensão de suscitar o debate sobre o lugar da mulher na sociedade. A grande maioria da violência sofrida pelas mulheres ocorre dentro de suas casas, e a repressão às mulheres na Cisjordânia as impede de denunciar. Após a exibição do filme aumentou sensivelmente as denúncias contra os abusos, resta saber se serão devidamente apuradas e julgadas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Vendedor de Passados


O Vendedor de Passados foi a primeira obra que li de José Eduardo Agualusa. Interessante foi perceber como esse angolano vê-se impregnado de influências lusófonas. É uma constante recorrer ao seu país, Portugal, Brasil e ainda a outras ex-colônias portuguesas.

O romance de Agualusa chama atenção para uma linha ténue que distancia sonhos, memórias e realidade. Interessante notar também como a história recente de seu país faz-se perceber na sua escrita, é claro que com toda sensibilidade de um bom escritor.

Sua leitura foi mais que um bom passatempo na última viagem feita entre Lisboa e Rio de Janeiro, foi o despertar de uma sensação que ainda não me havia dado conta: As influências do “mundo” que fala português me pertencem.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Mataram a irmã Dorothy

A vida e morte da estadunidense naturalizada brasileira Dorothy Stang, são retratadas no documentário "Mataram a irmã Dorothy" de Daniel Junge, que estréia hoje nos cinemas brasileiros.

A freira Dorothy Stang, de 73 anos, foi assassinada em Fevereiro de 2005 no Pará onde apoiava projetos, como o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS), que prevê o assentamento de famílias em terras da Amazônia destinadas pelo governo federal, conciliando a utilização reduzida da floresta e a agricultura familiar. Suas acusações contra a grilagem das terras destinadas ao projeto custaram-lhe a vida.

O documentário é de 2008, não abarcando os últimos acontecimentos do início deste mês, onde o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, acusado de ser o mandante do crime entregou-se a polícia.


segunda-feira, 6 de abril de 2009

Jean Charles

O longa “Jean Charles” de Henrique Goldman deverá em Junho estrear nos cinemas brasileiros. O filme, baseado em uma história real, conta a história do brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado pela polícia britânica em 2005. Certamente questões como os fluxos migratórios de brasileiros e a impunidade da polícia serão abordados. Confira o trailer: